TESTEMUNHO DE SÉRGIO PATRÍCIO – AUTO83

Sérgio Patrício começou a trabalhar por conta própria no setor automóvel em 2017, quando iniciou um novo capítulo profissional e criou a Auto83. Ao contrário do que o nome poderá sugerir, a designação da empresa não corresponde ao ano da sua fundação, o 83 é uma referência ao ano de nascimento do empresário.

Desde então, a Auto83 tem vindo a crescer de forma sustentada. Segundo Sérgio Patrício, a empresa dispõe atualmente de um stock próximo das 300 viaturas e recebe diariamente clientes provenientes tanto dos canais digitais como de uma carteira construída ao longo de vários anos.

Apesar do abrandamento sentido no mercado, o empresário recusa atribuir todas as dificuldades a fatores externos. Para Sérgio Patrício, é necessário que os comerciantes também olhem para dentro das suas empresas, invistam na formação das equipas e se adaptem a um consumidor mais informado, exigente e digital.

APDCA — A Auto83 foi criada em 2017. De onde surgiu o nome?

Sérgio Patrício — A Auto83 foi criada em 2017. O número 83 não corresponde ao ano de fundação da empresa, mas ao meu ano de nascimento. Inicialmente, ainda tive algumas dúvidas em relação ao nome, mas depois percebi que era uma designação simples e da qual as pessoas se lembravam facilmente.
Antes disso, fui técnico de telecomunicações, mas sempre com a cabeça nos automóveis por quem era apaixonado, a capacidade de gestão creio que herdei do meu pai que havia sido um empresário ligado ao ramo alimentar.

APDCA — A empresa conheceu um crescimento significativo desde então?

Sérgio Patrício — Sim. Foi um crescimento gradual e sustentado. Começámos com uma estrutura mais pequena e fomos aumentando o stock e a capacidade da empresa à medida que o negócio evoluía.
Atualmente, temos um stock próximo das 300 viaturas. Vendemos automóveis todos os dias, mas isso não significa que não sintamos as dificuldades do mercado. Uma empresa pode continuar a trabalhar e a vender e, ao mesmo tempo, perceber claramente que existe um abrandamento na procura.

APDCA — Quais são, neste momento, as principais dificuldades sentidas pelas empresas do setor?

Sérgio Patrício — Existe uma crise e está a vender-se menos. A instabilidade internacional, as guerras, o aumento do custo de vida e a incerteza sentida pelas famílias acabam por afetar as decisões de compra.
Mas a realidade é que não existe apenas uma causa. É um conjunto de situações. E também não podemos cair na tentação de dizer que a culpa é sempre dos outros. Por vezes nós, os comerciantes de automóveis usados, temos alguma dificuldade em fazer essa análise. É mais fácil responsabilizar o mercado, a economia ou a concorrência do que olhar para dentro da própria empresa e perceber o que precisa de mudar.

APDCA — Isso significa que algumas empresas ainda não se adaptaram à transformação do mercado?

Sérgio Patrício — Sem dúvida. Um comerciante tem de se modernizar. Caso contrário, fica para trás. Isto não acontece apenas no comércio automóvel. Vemos empresas a fechar em diferentes setores porque não conseguiram acompanhar a mudança dos hábitos de consumo, da tecnologia e da forma como os clientes procuram produtos e serviços.
No comércio automóvel, essa transformação é bastante mais evidente. O cliente mudou, a forma de procurar um automóvel mudou e a maneira como uma empresa se apresenta no mercado também tem de mudar.

APDCA — O que significa, na prática, modernizar uma empresa de comércio automóvel?

Sérgio Patrício — Passa, desde logo, pelo posicionamento da empresa no mercado. É necessário ter uma boa presença digital, comunicar corretamente, utilizar as redes sociais e responder com rapidez aos contactos dos clientes. Mas não chega estar presente na Internet. É preciso ter equipas preparadas, processos organizados e capacidade para acompanhar um consumidor que compara propostas, procura informação e chega ao stand com muito mais conhecimento do que no passado.
Uma empresa não pode continuar a trabalhar exatamente da mesma forma durante dez ou quinze anos e esperar obter sempre os mesmos resultados.

APDCA — Que importância têm atualmente os canais digitais para a Auto83?

Sérgio Patrício — São muito importantes, embora nem todos os negócios sejam concluídos exclusivamente através da Internet. Cerca de 50% dos contactos têm origem nos canais digitais. A restante atividade resulta muito da nossa carteira, de clientes que já nos conhecem, que regressam ou que são recomendados por familiares e amigos. O contacto online tornou-se, de certa forma, mais frio. Por isso, a relação construída ao longo dos anos, a confiança e o acompanhamento do cliente continuam a ter um peso muito grande.
O digital é essencial para gerar o primeiro contacto, mas o relacionamento humano continua a ser decisivo.

APDCA — A formação tornou-se, então, indispensável para acompanhar esta evolução?

Sérgio Patrício — Claro. Sem dúvida. A formação é essencial porque as mudanças estão a acontecer muito rapidamente. Temos novas ferramentas digitais, novas formas de comunicar, inteligência artificial e clientes com comportamentos diferentes. Não basta uma empresa querer ter acesso à tecnologia. É necessário saber utilizá-la. E isso implica formar as equipas, atualizar conhecimentos e estar disponível para aprender continuamente. Quem acreditar que já sabe tudo ou que pode continuar a trabalhar como sempre trabalhou terá cada vez mais dificuldades.

APDCA — A Auto83 já recorreu às iniciativas de formação da APDCA?

Sérgio Patrício — A gestão dessas matérias é acompanhada sobretudo pelos meus colaboradores e sim já participaram em ações de formação. Através da nossa ligação à APDCA, reconhecemos a importância do trabalho desenvolvido pela mesma. Num setor sujeito a alterações constantes, é fundamental existir uma entidade capaz de informar, formar e apoiar os profissionais. Além disso, como referi, uma oferta formativa adaptada às necessidades dos profissionais do setor é uma mais-valia a valorizar.

APDCA — A inteligência artificial também deverá fazer parte dessa aposta formativa?

Sérgio Patrício — Sim, naturalmente. A inteligência artificial e as novas tecnologias já fazem parte da atividade das empresas e terão um peso cada vez maior. Mas estas soluções devem ser encaradas como ferramentas. Para retirar valor delas, temos de perceber como funcionam, onde podem ser aplicadas e de que forma podem ajudar a empresa e o cliente.
É precisamente por isso que as ações de formação, como as propostas pela APDCA, são tão importantes. A tecnologia, por si só, não resolve os problemas. É necessário preparar as pessoas para a utilizarem corretamente.

APDCA — Caso pudesse alterar imediatamente uma realidade do setor, qual escolheria?

Sérgio Patrício — Atuaria sobre o mercado paralelo e sobre os falsos particulares que vendem automóveis de forma recorrente sem assumirem as mesmas responsabilidades das empresas. Não estamos a falar de alguém que vende pontualmente o seu automóvel. Estamos a falar de pessoas que comercializam várias viaturas, muitas vezes utilizando nomes de familiares, mas que não têm uma estrutura aberta ao público, não pagam os mesmos impostos e não assumem as mesmas obrigações em matéria de garantia.
Uma empresa legal tem instalações, trabalhadores, impostos, custos operacionais e responsabilidades perante o consumidor. Não é possível existir uma concorrência justa quando outros operadores desenvolvem a mesma atividade sem cumprirem as mesmas regras.

APDCA — Que mensagem deixaria aos restantes empresários do comércio automóvel?

Sérgio Patrício — O mercado está a mudar muito e ninguém pode ficar parado. É necessário acompanhar o consumidor, investir nas pessoas, apostar na formação, lutar pelos nossos direitos e apostar no espírito de união. Mas também é preciso deixar de culpar sempre os outros e perceber o que cada empresário pode melhorar dentro da sua própria empresa. Quem se souber adaptar continuará a encontrar oportunidades. Quem não acompanhar os novos tempos ficará inevitavelmente condenado a desaparecer ou a ficar para trás.