A recente intenção do Governo de lançar um novo concurso de apoio à aquisição de veículos elétricos, com uma dotação de 20 milhões de euros, vem reforçar o compromisso com a descarbonização da mobilidade em Portugal. No entanto, a Associação Portuguesa do Comércio Automóvel (APDCA) considera que o modelo atual continua a revelar limitações significativas, que importa corrigir para garantir uma verdadeira democratização do acesso à mobilidade sustentável.
Nos últimos anos, os programas de incentivo à compra de veículos elétricos têm sido esgotados em poucas horas, evidenciando não só a procura existente, mas também a insuficiência e falta de previsibilidade das medidas. Mais relevante ainda, estes apoios continuam, na sua maioria, focados na aquisição de viaturas novas, deixando de fora uma parte significativa da população.
A APDCA entende que esta abordagem não reflete a realidade do mercado português. A maioria dos consumidores não dispõe de capacidade financeira para adquirir um veículo elétrico novo, mesmo com incentivo estatal. Neste contexto, os veículos usados recentes — incluindo elétricos com poucos anos — representam uma solução mais acessível, segura e eficaz para acelerar a renovação do parque automóvel nacional.
Alargar o acesso, aumentar o impacto
A Associação defende, por isso, que os incentivos públicos devem abranger também viaturas usadas recentes, até cinco anos, independentemente da motorização, desde que garantam uma redução efetiva de emissões face aos veículos mais antigos. Esta medida permitiria:
• Aumentar o impacto ambiental positivo das políticas públicas
• Apoiar o setor do comércio de automóveis usados, que tem um papel central na renovação do parque automóvel
Importa recordar que a substituição de um veículo com mais de 15 anos por um automóvel recente — mesmo com motor térmico Euro 6 — representa uma redução significativa de emissões e um ganho relevante em termos de segurança rodoviária.
Incoerências que penalizam a transição energética
A APDCA alerta ainda para situações que contrariam os objetivos da transição energética. Um exemplo claro prende-se com a utilização de viaturas comerciais 100% elétricas por parte das empresas, já que muitas delas continuam a ser classificadas como Classe 2 nas portagens, ao contrário de veículos como SUV ou monovolumes, que beneficiam de um enquadramento mais favorável.
Esta discrepância penaliza diretamente empresas que optam por soluções mais sustentáveis, criando um desincentivo à eletrificação das frotas profissionais, precisamente um dos segmentos com maior potencial de redução de emissões.
Uma política mais justa e eficaz
Para a APDCA, a transição energética deve ser inclusiva, equilibrada e ajustada à realidade económica do país. Limitar os incentivos à aquisição de veículos novos é restringir o alcance das políticas públicas e comprometer os seus resultados.
A Associação continuará a defender junto das entidades competentes um modelo mais abrangente, que reconheça o papel dos veículos usados recentes — incluindo elétricos — como parte fundamental da solução para uma mobilidade mais sustentável em Portugal.