Testemunho de Nuno Lobo – Specialcar

Desde 2002 que o Nuno Lobo está no mercado de automóveis usados, começando por trabalhar como empresário individual. Há 10 anos fundou a Specialcar na forma societária com sócio, consolidando um projeto que hoje é a sua vida profissional e uma referência na sua região (Alverca do Ribatejo). É associado da APDCA praticamente desde os primeiros anos, “acho que desde o primeiro ano”, afirma convicto.

A Specialcar tem como foco viaturas da gama média a média-alta (a partir de cerca de 15 mil euros), embora o mercado nem sempre permita essa exclusividade. Um dos maiores obstáculos que enfrenta é a falta de stock, algo que, segundo Nuno Lobo, afeta quase todos os comerciantes, embora menos os que já têm uma grande escala para importar. Nuno Lobo admite que já lidou com as importações, mas que optou por recuar por causa da complexidade do processo.
Um dos temas que mais o preocupa é a concorrência desleal dos falsos particulares: “alguns operam como particulares, mas, na prática, são profissionais que não cumprem obrigações legais”. Para ele, a legislação peca por não filtrar ou desencorajar essas práticas: “quem trabalha dentro da lei acaba por estar em desvantagem. Se quisessem filtrar esta atividade era fácil, bastava começarem pelos portais e pelo número de viaturas que cada “particular” tem à venda ou teve à venda nos últimos meses”.

Outro ponto sensível são as garantias. Embora reconheça a importância de proteger o consumidor, não vê como razoável aplicar a mesma regra a carros de idades, quilometragens e condições muito diferentes: “não faz sentido dar uma garantia para um carro com 200 mil quilómetros como se fosse um com 50 mil”. A sua proposta é de garantias faseadas, ajustadas à idade e ao desgaste natural. “Se o automóvel for praticamente novo, digamos, com menos de três anos, teria direito a uma cobertura mais alargada. Se estivéssemos a falar de um automóvel com 20 anos, 250 mil quilómetros, e que custa 3000€, a garantia seria, necessariamente, diferente”. Até porque os custos acabam por ser transferidos para o consumidor final e, neste último, o valor imputado era muito menor, permitindo ter um preço mais competitivo.

Por fim, o IUC sobre veículos em stock é outro fator que considera injusto: “é ridículo. “Se um veículo está parado, porque é que tem de pagar um imposto de circulação?”. Ele sustenta que o Estado perde receitas, mas que a lei precisa de mecanismos para defender e apoiar quem age dentro da legalidade.

O testemunho de Nuno Lobo é a voz de quem trabalha dentro das regras e enfrenta diariamente os desequilíbrios do mercado. É uma chamada para reforçar o papel da APDCA como agente de mudança. “Precisamos de regulamentação, de fiscalização, de propostas concretas para ajustamento de garantias e uma barreira clara à concorrência informal”.
Nuno Lobo termina afirmando que “quem trabalha corretamente e de forma justa e legal acaba por pagar por quem não cumpre”, uma frase que resume a frustração de muitos e justifica por que a união e a ação coletiva defendida pela APDCA são tão necessárias.