A ACEA publicou a edição “Vehicles on European Roads”, um retrato muito esclarecedor do parque circulante na Europa. Para o comércio de usados, o interesse é imediato: o relatório confirma, com números, que a realidade “na estrada” evolui a um ritmo muito diferente do das matrículas novas e que a renovação do parque continua a ser o grande tema estrutural.
Mais veículos em circulação: UE e Portugal em trajetória de crescimento
Em 2024, a frota de ligeiros de passageiros na União Europeia atingiu 255.999.373 viaturas, o que representa +1,4% face a 2023. Em VCL (ligeiros comerciais até 3,5 t), o total foi de 31.113.763, com um crescimento de +1,9% no mesmo período.
Portugal acompanha esta tendência e com crescimento acima da média nos ligeiros de passageiros: em 2024, registam-se 5.970.000 automóveis ligeiros em circulação (+3,8%) e 1.204.000 VCL (+2,3%).
Também é relevante o indicador de “densidade automóvel”, que ajuda a contextualizar a procura: a UE contabiliza 570 carros por 1.000 habitantes e Portugal 561 (2024), confirmando o automóvel como meio central de mobilidade.
O ponto crítico: envelhecimento do parque (sobretudo nos VCL em Portugal)
O relatório evidencia que o parque não só cresce, como envelhece. Na UE, os carros têm idade média de 12,7 anos e os VCL 12,9 anos.
Em Portugal, o dado mais sensível para o segmento profissional é o dos VCL: a idade média dos ligeiros comerciais é de 16,1 anos, um valor que traduz desgaste, custos de operação mais elevados e, sobretudo, maior distância face aos padrões mais recentes de segurança e eficiência.
É exatamente aqui que o mercado de usados, quando é profissional, transparente e com garantias, tem um papel decisivo na renovação real do parque, oferecendo soluções viáveis para empresas e famílias que não conseguem comprar novo.
Eletrificação: o “fosso” entre as vendas e a frota real
A ACEA é muito clara ao comparar tendências de mercado com a frota em circulação: embora os carros BEV já representem “quase 17%” das matrículas na UE em 2025 (até à data), na frota total em circulação os BEV são apenas 2,3%, e os híbridos plug-in (PHEV) 1,4%. Ou seja: a mudança está a acontecer, mas o parque, que é enorme, demora anos a transformar-se.
A própria composição do parque europeu de ligeiros confirma essa transição gradual: em 2024, na UE os carros ainda são maioritariamente gasolina (49,2%) e diesel (38,4%), com BEV (2,3%), PHEV (1,4%) e híbridos (5,0%) a crescerem, mas ainda longe de dominar a frota.
VCL: transição ainda mais lenta
Nos VCL, a fotografia é ainda mais conservadora e Portugal é um caso extremo. Em 2024, a UE mantém 90,3% dos VCL a diesel e apenas 1,3% 100% elétricos. Em Portugal, os VCL são 99,1% diesel e apenas 0,6% BEV.
Este dado é crucial para qualquer discussão regulatória: a descarbonização das frotas comerciais ligeiras exige condições habilitadoras (infraestrutura, incentivos e soluções operacionais) e não pode ser tratada como uma simples “substituição imediata”.
O que estes números significam para o setor do usado (e para a posição da APDCA)
O relatório da ACEA reforça três mensagens que interessam diretamente aos profissionais do comércio automóvel:
1. O usado é estrutural: o parque é vasto, cresce e renova-se lentamente, logo, a procura por usados continuará forte e com um elevado peso social e económico.
2. Renovar o parque é a medida com impacto mais rápido, sobretudo em Portugal, onde os VCL são muito envelhecidos (16,1 anos).
3. A transição tem de ser pragmática: o fosso entre as matrículas e a frota real demonstram que as metas só funcionam quando acompanhadas por medidas exequíveis para consumidores e empresas.
É neste contexto que a APDCA continua a defender políticas públicas focadas em substituir veículos antigos por veículos mais recentes, mais seguros e mais eficientes, valorizando também o papel do usado profissional como instrumento realista de renovação do parque, especialmente num país onde o envelhecimento do parque (em particular nos VCL) é um dos maiores bloqueios à modernização da mobilidade e ao consequente aumento da eficiência e da segurança rodoviária.